Não é curso, não é voluntariado: é vivência

Um pouco da experiência de Permacultura na Prática na Nova Oikos

Por Michele Torinelli

 

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Ciranda do barro: pisando a massa do pau a pique. Imagem: Airo Barros.

13 dias, mais de 20 pessoas, práticas de bioconstrução, mudas plantadas, receitas experimentadas e muito de uma troca menos objetiva e mais profunda que fica difícil de relatar. Como construir uma outra agricultura, uma outra alimentação, uma outra construção civil, um outro saneamento, uma outra forma de viver e de se relacionar, enfim, um outro mundo que não esse calcado no medo e na exploração?

Não sabemos, temos algumas pistas e teimamos em experimentar.

Vegetarianismo, veganismo e crudivorismo. Agrofloresta e permacultura. Consumo consciente.  Bioconstrução. Conexão natural e espiritual. Comunidade. Cuidado com os outros, com a terra, com o mundo. Esses foram alguns dos temas que permearam a vivência Permacultura na Prática, realizada na Nova Oikos de 07 a 20 de dezembro de 2015.

“O que a gente faz aqui pode parecer pequenininho, mas é parte de um movimento internacional, revolucionário, subversivo”, disse Mildred Delambre, coordenadora da Nova Oikos, iniciativa localizada em Camboriú (SC). Já disseram pra Mildred que ela é “o cara”, mas ela não gostou não: “por que até pra elogiar precisam chamar a gente de ‘cara’?”, desafia.

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E a revolução se dá nas pequenas atitudes – como o fato de não haver um valor fixo para a inscrição na vivência, apenas um indicativo de contribuição espontânea. Informa-se o custo diário por pessoa e pede-se que cada um contribua de acordo com sua condição. A planilha financeira, com entradas e gastos, é disponibilizada para todos.

Outro diferencial é o período mínimo de permanência: pelo menos cinco dias, visando a criação de vínculos, tanto com a proposta como entre as pessoas. Os objetivos principais da experiência não são o lazer nem o passeio, mas a troca, a prática e o aprendizado – e sem substâncias entorpecentes, legais ou ilegais, pois é possível socializar sem elas, talvez de maneira ainda mais verdadeira.

Os participantes se autogestionam para preparar as refeições e limpar os espaços comuns. Como destaca Mildred, a vivência não é um serviço oferecido pela Nova Oikos. A Nova Oikos é composta por cada um que ajuda a construí-la, com suas mãos, sua vontade, sua entrega –  uma tentativa de subverter a propriedade privada tornando-a comum. Não é fácil, a autonomia é um desafio que exige que cada um reconheça sua responsabilidade e arque com ela.

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Mildred falando sobre Bacia de Evapotranspiração: “sala de aula” na mata

A superação da condição de cliente para a de parceiro, seja do que quer que façamos, é um salto emancipador. Para isso precisamos nos tornar mais criteriosos e nos libertar da condição de consumidores passivos e de empregados – que esconde a introjetada necessidade de termos um chefe, alguém que decide e manda por nós. Exige aprender a ser livre, um intenso exercício que pressupõe desaprender muito do que nos ensinaram e construir uma nova (velha) forma de se viver, resgatando o que já sabiam nossos ancestrais – o que, com muita resistência, ainda praticam os povos tradicionais e, com muita luta e coragem, também fazem os movimentos sociais.

 

Dos conceitos à ação

Muitas atividades foram desenvolvidas a partir dessa lógica comunitária e colaborativa que se engendra em diálogo com a permacultura, perspectiva que se baseia no cuidado com a terra e com os outros, bem como na partilha justa. O termo, que foi cunhado na Austrália e se disseminou pelo mundo, envolve princípios, metodologias e práticas que abarcam agricultura, saneamento, construção e relações entre os seres vivos.

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Preparando a agrofloresta

Iniciamos uma agrofloresta atrás do alojamento da Nova Oikos, local bioconstruído ao longo das vivências para abrigar colaboradores. Para isso recolhemos matéria orgânica, utilizada como adubo, o que envolveu o manejo do bambuzal, cujas folhas secas e galhos apodrecidos oferecem ricos nutrientes. Também foram recolhidas mudas de bananeiras, e os caules excedentes utilizados como adubo para as novas plantas, assim como as folhas em decomposição que se acumulam sobre o solo em meio à mata.

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Banheiro seco com parede de pau a pique preenchida com lixo

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) imitam a lógica natural para a produção planejada de vegetais, considerando a relação entre plantas, clima, solo e comunidade. Combinam-se diferentes espécies de modo a favorecer todos os elementos, o que permite recuperar áreas degradadas e produzir, simultaneamente, alimentos, matéria orgânica para adubagem e até mesmo madeira. É o oposto do que faz o sistema de monocultivo, que degrada o solo para a produção de uma única espécie em larga escala, frequentemente com o uso de fertilizantes e agrotóxicos. Além de reflorestar a área, a agrofloresta iniciada produzirá alimentos para os futuros encontros no local.

A vivência abarcou também a bioconstrução de algumas obras: a estrutura de um novo banheiro seco foi levantada, com direito a telhado de folha de palmeira e paredes preenchidas com todo o lixo produzido ao longo do último ano no local (as paredes serão revestidas de acordo com a tradicional técnica de pau a pique, a partir de uma mistura de terra, areia e palha).

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Reboco grosso no pau a pique

A cozinha da Nova Oikos ganhou coberturas de folha de palmeira, material disponível na área. As lonas utilizadas como base para os telhados foram reaproveitadas, dando uma finalidade útil para esse resíduo da indústria publicitária.

Fizemos o reboco de uma parede de pau a pique na Panaceia, iniciativa parceira da Nova Oikos e adepta da permacultura localizada em Camboriú. Lá também contribuímos com o manejo do lixo (ou melhor, o resíduo) orgânico, coletado em estabelecimentos comerciais da região e transformado em adubo.

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Lixo do banheiro vira adubo no bokashi

De volta à Nova Oikos, fizemos uma experiência de bokashi, um super adubo que potencializa o cultivo vegetal. Entre os vários elementos da fórmula, utilizamos os resíduos da cozinha e do banheiro produzidos ao longo da vivência – sim, seu papel higiênico pode virar adubo!

Outra atividade foi a construção de piscinas naturais a partir do remanejamento de pedras do rio. E, no espírito de parceria, visitamos o Ecossítio Arandu, no munícipio de Paulo Lopes. Lá construímos uma BET  (Bacia de Evapotranspiração), técnica bastante difundida entre permacultores e que permite fazer o tratamento de efluentes domésticos (neste caso as águas negras, das privadas) de forma autônoma e ecológica.

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Piscina natural

Mildred fez uma exposição teórica sobre o tema na melhor “sala de aula” que poderia existir – a mata. O buraco da BET já estava cavado – fizemos os reparos necessários para o nivelamento (considerando o escoamento de água), revestimos com lona e fizemos um túnel de pneus com o cano do banheiro acoplado. Sobre ele jogamos uma camada de entulho grosso de construção (muitos tijolos e concreto quebrado)  e algum resíduo doméstico (ferro e plástico). Depois revestimos com terra e cobrimos com palha retirada da mata. O próximo passo será plantar as espécies que farão a limpeza, a fitorremediação: bananeira e taioba, entre outras.

Para o tratamento de águas cinzas, que são todas as outras que carregam os resíduos produzidos numa casa, basta um círculo de bananeiras.

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Trabalho na BET com trilha sonora ao vivo

A vivência também contou com oficinas autogestionadas oferecidas pelos participantes, como círculos sagrados (feminino e misto), comunicação compartilhada, bolos veganos e outras mais, sem falar nas muitas fogueiras rodeadas de música e dos inúmeros improvisos sonoros que catalisaram a energia nos momentos em que ela mais era necessária.

 

Redes de cooperação e empoderamento

As atividades da vivência encerraram no dia 19 com uma Feirinha Permacultural aberta à comunidade, que contou com a venda de produtos orgânicos e artesanais, feira de trocas, prática de yoga e almoço comunitário feito pela galera da vivência. A programação também incluiu oficinas sobre cosméticos naturais, produção e aproveitamento de resíduos, PANCs (Plantas Alimentícias Não-Convencionais) e maternidade consciente. Como não poderia deixar de ser, o evento foi gratuito, aberto a contribuições espontâneas.

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Oficina de cosméticos naturais: em roda

Em meio à programação oficial podia-se vislumbrar uma teia de trocas de informações e afeto que unia as pessoas nas rodas, que conectava olhares e conversas. Percebia-se que o movimento é diverso, plural, mas, ao mesmo tempo, unitário. As diferenças podem e devem ser conectadas a partir de princípios, objetivos e práticas comuns ou complementares, que valorizem a saúde integral dos seres vivos e a emancipação humanitária. Esse outro mundo, em alguma medida, já existe: está em gestação.

As trocas foram intensas ao longo de toda a vivência, que envolveu muitas risadas e muito companheirismo, mas também conflitos e dificuldades inerentes à rotina comunitária. A frequentemente difícil definição de acordos em meio aos conflitos não só faz parte do processo de construção de comunidade, mas traz em si o gérmen de todo o potencial de crescimento e realização que só o enfrentamento ao individualismo proporciona. Para isso, mesmo em meio a tantas demandas e anseios objetivos, o acelerado ritmo coletivo era suavizado para a realização de rodas de conversa de avaliação, em que cada um colocava como se sentia, o que estava achando positivo ou o que podia ser melhor.

Havia um cuidado constante com a afinação do grupo, para além das reuniões: as rodas antecediam todas as refeições, momentos em que as mãos se juntam e o julgar é substituído pelo sentir, em que o toque acalma a mente e conecta os corações. Lembrar de agradecer à vida e aos companheiros, de celebrar o alimento e a união. De fortalecer o corpo e o espírito com uma comida saudável que beneficia o produtor, o consumidor e a terra.

O sentimento é de gratidão, palavra tantas vezes repetida na vivência, que em muitas ocasiões é banalizada – assim como a palavra amor, presente em inúmeras propagandas de produtos que vendem a exploração e a doença; a indústria “ama muito tudo isso”. Mas a subversão de não estar obrigado a nada, mas grato a tudo, é profunda: é um empoderamento que surge do amor à vida, em todas as suas manifestações. Reflexão essa que foi verbalizada, justamente, na última roda de avaliação da vivência.

As palavras têm poder: podem escravizar ou emancipar, reproduzir ou subverter. São roupas com que vestimos nossos pensamentos e sentimentos, uma das formas com que podemos manifestar nosso espírito. Façamos bom uso delas, para disseminar o que realmente importa. Esse texto é um experimento nesse sentido.

 

Ahô! Saravá! Namastê.

 

Só ET.

 

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Quadro de boas vindas da Feirinha Permacultural que aconteceu na Nova Oikos no último dia da vivência

 

7 comentários sobre “Não é curso, não é voluntariado: é vivência

  1. Quanta sensibilidade Michele!

    Voce tem o olhar muito apurado e consegue através do texto uma tradução fidedigna. Espero ter a sorte de te-la por perto em Vivências futuras.

    Como “Renato Russo” cantou em volta a uma das nossas fogueiras numa daquelas noites, você conseguiu “chegar até as nuvens com os pés no chão”.
    Suas comprovadas e compartilhadas sensações foram traduzidas em exatas palavras, frases e períodos que fazem todo o (sentimento) sentido.

    Eu até agora a pouco ainda tinha duvidas se algumas coisas, que eu imaginava que haviam acontecido nesses últimos dias na Nova Oikos, haviam acontecido ou não. Agora tendo seu texto como prova, sei que vivi daquelas coisas que se guardam para contar aos netos, pois só eles irão acreditar que nesses últimos dias eu vive entre ETs e Discos Voadores! Rsrs. Espero que no futuro próximo esses acontecimentos sejam mais comuns. E alguem do nosso grupo, com certeza, vai dizer: Ahoo!

    Gratidão por compartilhar suas impressões

    E mais um Ahoo!

    Wagner Gil

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