PDC na Nova Oikos desde dentro

Relato do PDC (Curso de Design em Permacultura) realizado na Nova Oikos em janeiro de 2016. Por Gabriela Klein.

4

Imagem: Michele Torinelli

Todo o período entre 12 e 25 de janeiro, que fiquei na Nova Oikos junto com mais 29 pessoas, foi mais do que aprendizado teórico e prático sobre permacultura. Foi respirar essa palavra com todas as letras, P-E-R-M-A-C-U-L-T-U-R-A, em cada segundo do curso. Vou contar como.

Todos os eventos da Nova Oikos são, na verdade, vivências de empoderamento – e o Curso de Design de Permacultura (ou PDC) não foi diferente. As tarefas domésticas que tem que ser feitas são divididas por todos: limpeza, café da manhã e outras refeições, lavar a louça, virar o bokashi (um adubo orgânico superpotente que é ensinado como fazer durante o curso), esvaziar o banheiro seco, entre outras tarefas de rotina do lugar. Como a Nova Oikos é um espaço que está em construção, há muita demanda durante o curso em questão de logística, então só funciona bem se todos ajudarem. E essa ajuda não está na tabela de tarefas.

5

Feitura do bokashi

Às vezes o que não aprendemos ou esquecemos na cidade é um dos três princípios éticos da permacultura, cuidar das pessoas. O lugar nos puxa para fazermos isso e lembrarmos disso a toda hora. Lá vemos as pessoas de forma diferente, o que nos ajuda a olhar melhor as pessoas quando voltamos. Por exemplo, como ficamos bastante embaixo do sol e/ou recebendo uma grande carga de conhecimento, precisamos de água, uma das necessidades básicas do corpo. Naturalmente, adere-se a uma prática, quem bebe água oferece essa água para todos! Outra coisa natural que vi e pratiquei foi perguntar para as pessoas como elas estão, logo cedo. “Bom dia, como você está? Dormiu bem?”. Olhando nos olhos da pessoa, tocando, abraçando, e o resultado é incrível! Muitos me falaram que há tempos as pessoas não se preocupavam de fato com elas.

Outro princípio ético é cuidar da terra: em quais momentos na nossa vida sentimos que fazemos parte da natureza? Nos ocupamos muito em envenenar a terra, as plantas e os animais para que produzam muito para satisfazer os desejos de poucos. Aprendemos a valorizar e incentivar os alimentos orgânicos e a produção local. Além do mais, o que deixamos para a terra? O uso de químicos, para começar no nosso próprio corpo, é o que vai para a terra e para as plantas e animais em qualquer lugar que você esteja. Então repensar a quantidade e a qualidade dos cosméticos e produtos de higiene que você utiliza é importante. Cada conversa e troca sobre o uso de cosméticos naturais e caseiros agrega na sua própria experiência.

O terceiro princípio ético da permacultura é a importância de repartir os excedentes e do consumo consciente – e naturalmente me veio na cabeça uma frase que me marcou muito durante o curso: “Pegue suficiente pra ti lembrando que tem mais pessoas pra pegar”. Frase dita pela Rafa para o companheiro Martin em um momento inesquecível para mim. Questionamentos me vêm na cabeça. Você realmente precisa disso? E se precisa, será que tem mais gente que precisa também? Essa ética fala sobre tantas coisas que é até difícil contextualizar tudo. Tudo o que produzimos tem o objetivo de utilizar algo ou consumir de alguma forma, e tudo que consumimos e utilizamos gera um resíduo. Se pararmos por aí terá um acúmulo de resíduos e matéria-prima finita para produzir. Por isso, pensar em fechar o ciclo é essencial para a vida continuar fluindo. E ainda, quando se fala em repartir os excedentes, se chega à conclusão que há excedentes e, por isso, há abundância, em tudo, alimentos, emprego, dinheiro, e quando falta é porque é mal distribuído e acaba não chegando à maioria das pessoas – o que gera um pensamento de falta, de escassez.

A rotina da Nova Oikos para alguns é parecida com a rotina da cidade, para outros é bem diferente. Acordamos cedo e o café está servido às 7h, temos em geral até às 7h30/8h para estarmos prontos para a atividade. Como este curso é bastante teórico, tivemos bastante aulas teóricas, sendo em sala, na mata, na geodésica ou entre a cozinha e o alojamento, aproveitando os horários de sol e sombra dos diversos ambientes, ajudando o corpo a captar melhor essa energia que vem através do conhecimento e armazená-la de forma eficiente (2° princípio da permacultura segundo David Holmgren). O espaço em si nos transmite muita calma e tranquilidade, o contato com a natureza nos ajuda a observar e interagir (1° princípio) conscientemente com ela e, assim, aprendendo a fazer o mesmo com as pessoas. E através dessas observações em uma das aulas práticas, vimos que a natureza nos mostra vários padrões e cada padrão tem seus detalhes (7°), e essas formas são respostas da natureza a condições do clima. No meio da manhã e da tarde recebemos lanches para fortalecer ainda mais o aprendizado e assim obter o rendimento (3°) que é esperado para o curso. Antes de todos os almoços e todas as jantas é feito uma roda de agradecimento à comida e tudo que trouxe ela para os pratos, para nos acalmarmos e nos conectarmos com o alimento. Depois os cozinheiros apresentam a comida do dia e todos vão comer. A alimentação do curso todo é o máximo possível orgânica, vegetariana e evitando os derivados de leite e ovos.

O terreno possui abundância em água mineral, por ter diversas nascentes, mas não é por isso que não somos ensinados a evitar o desperdício (6°): lavamos a louça no sistema de três bacias de água e sempre pensamos que o resíduo gerado no banheiro e na cozinha se transforma em adubo, seja para a BET (bacia de evapotranspiração), seja para o bokashi. Em alguns exercícios práticos que fizemos o maior desafio era o pouco tempo que tínhamos, então descobrimos que usar soluções pequenas e lentas (9°) acabava sendo mais
rápido e eficiente do que pensar em realizar grandes sonhos de imediato. A construção de um projeto em grupo pode dar muito certo se utilizar e valorizar os recursos que cada um tem a oferecer porque assim a energia do projeto, do local e do grupo é sempre renovada (5°). Então aprendemos a acolher a criatividade, a metodologia, a habilidade de fazer ótimos desenhos e, principalmente, os sonhos, integrando cada participante no grupo, em vez de segregar (8°). O círculo dos sonhos é exemplo disso, em que cada um tem um tempo para falar sobre seus sonhos, algo que não nos permitimos fazer nos dias de hoje.

2

Os facilitadores mostraram que existe diferença na abordagem e na visualização da permacultura através das pessoas, o que a princípio pode ter gerado um certo desconforto ou admiração por um ou outro. Porém, no decorrer do curso aprendemos a usar e valorizar a diversidade (10°) – não só dos facilitadores, mas de cada participante. As pessoas são diferentes e ao longo de toda nossa vida a sociedade insiste em nos deixar iguais, quando o simples é apenas aceitar a diferença e saber utilizar ela para o bem do coletivo. Nesse mesmo pensamento, vimos que as grandes empresas e corporações centralizam muitos serviços – o que faz com que as pessoas esqueçam de usar os limites e valorizar os elementos marginais (11°),  que geralmente são os com maior potencial.

Para que o curso e a Nova Oikos sempre se renovem, os organizadores do curso tiveram todo o cuidado com as críticas, os sentimentos, as insatisfações, as alegrias e empolgações dos participantes através de círculos de trocas em que todos tinham a oportunidade de se expressar sobre como estavam se sentindo. Aplicar a autorregulação e aceitar o feedback (4°) foi também o objetivo do questionário no último dia do curso, respondido pelos participantes e retornado com observações e agradecimentos pela guardiã da Nova Oikos e organizadora do PDC, Mildred.

Apesar de todas as dificuldades, todos os encantamentos e, agora, a volta para a cidade, o maior legado que o curso me deixou foi a esperança. Essa palavra me mantém na luta para eu me unir com as pessoas e transformar o ambiente urbano e rural respeitando as pessoas e o meio ambiente. E eu só vejo uma maneira de fazer isso, usando e respondendo à mudança com criatividade (12°); dessa forma podemos sensibilizar as pessoas e despertar nelas o poder da transformação interna.

Obs.: Obrigada a todos os participantes que foram a maior inspiração para eu conseguir começar e terminar esse relato (Mil, Martin, Peter, Rafa, Thomas, Emily, Maicos, Fer, Lais, Matheus, Elis, Ana, Cajuzinho, Aninha, Bruno, Paolo, Mii, Arthur, Pats, Vine, Wagner, Carla, Taci, Joabi, João Paulo, Mari, Cairo, Flavio, Pedro e Sol).

3

Imagem: Rafaelle Mendes

Um comentário em “PDC na Nova Oikos desde dentro

  1. Pingback: PDC Nova Oikos em janeiro 2018 | Nova Oikos Permacultura e Decrescimento - Endereço: Camboriú, Santa Catarina Contato: E-mail: nova.oikos@gmail.com

O que você acha disso? Vamos conversar!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: