Curso aplicou conhecimentos e técnicas para a construção de casas e entornos residenciais produtivos, ecológicos e harmônicos

Por Michele Torinelli

DSC_0176

 

Feriado de Páscoa e cerca de 40 pessoas resolveram fugir dos convencionais encontros de família para aprender um pouco de permacultura e de bioconstrução coletiva na Nova Oikos. O curso foi facilitado pela anfitriã Mildred Gustack e pelo convidado Marcos Ninguém, conhecido pelo movimento permacultural que está encabeçando em Alpestre (RS).

Pra começo de conversa, Marcos esclarece que permacultura é um apelido para design em permacultura. “Usamos a palavra design, como na sua origem, em inglês, porque não existe uma boa tradução para o português. Teríamos que usar muitas palavras para traduzi-la, como composição, desenho, planejamento, projeto etc”, explica. E mesmo o termo permacultura é polêmico, sendo frequentemente traduzido como cultura permanente. Para Marcos, cultura nunca é permanente, mas algo sempre em transformação. “Seria mais uma cultura de como viver mais tempo no planeta, de modo sustentável, viável para todas as formas de vida”, defende.

A anfitriã Mildred Gustack e o convidado Marcos Ninguém

A anfitriã Mildred Gustack e o convidado Marcos Ninguém

O design em permacultura, resumidamente, consiste no planejamento de ambientes humanos sustentáveis, prática que dialoga com a agroecologia, com a bioconstrução e com a agrofloresta – mas cada um desses termos revela concepções e práticas distintas. O design permacultural baseia-se em princípios de cooperação, sustentabilidade, conexões entre elementos e funções planejadas. “Cada função é apoiada por diversos elementos e cada elemento desempenha diversas funções” – eis um dos mantras da permacultura. E entende-se que uma prática é sustentável quando seu ciclo energético é fechado – ou seja, gerando o mínimo de entropia. A permacultura vai além: faz com que a intervenção humana em meio à natureza não só produza a mesma quantidade de energia que gasta, mas realize um aporte energético no sistema.

4

Marcos Ninguém e suas muitas histórias

Marcos acredita que a permacultura tem condições concretas de reverter os danos ambientais que o capitalismo predatório tem causado na Terra. Ele conta que Bill Mollison, um dos fundadores da permacultura, implementou um projeto que colocou teto verde em todas as casas de um bairro em Dusseldorf, na Alemanha. O resultado foi uma diferença de temperatura de dois graus em relação ao centro da cidade. “Imagina fazer uma ecovila para abrigar os desalojados do desastre em Mariana? Ia faltar lugar para tanta gente que ia querer participar”, acredita Ninguém. Lá em Alpestre ele está fundando duas ecovilas, um diplomado em permacultura – que vale como especialização para quem tem graduação e como curso técnico para quem não tem -, e já tem mais dois diplomados a caminho: de ecovilas e de bioconstrução (acompanhe toda essa movimentação em Alpestre aqui).

“Sou contra o capitalismo, mas vai colocar o quê no lugar? A permacultura veio dar a resposta de como seria esse outro mundo, na prática – o saneamento, a agricultura e até a economia -, coisa que os ‘ismos’ não me responderam”, conta Ninguém, que se diz um cara de esquerda, de posição política definida, “descendente dos barbudos, dos movimentos sociais, dos cubanos”, como ele mesmo fala.

 

Zona Zero e Zona Um da Nova Oikos

A proposta do curso foi implementar o design e as práticas permaculturais no espaço da Nova Oikos. Zona zero e zona um, na permacultura, dizem respeito à morada e aos espaços imediatos à ela – ou seja, o ambiente de vivência cotidiana. No caso da Nova Oikos, trata-se do alojamento, da cozinha, dos banheiros e da área de confraternização.

Coleta e preparo dos materiais de bioconstrução

Coleta e preparo dos materiais de bioconstrução

O curso começou pela prática: na quinta-feira (24) juntamos os materiais necessários para os trabalhos que seriam realizados nos próximos dias. A previsão para o dia seguinte era de muita chuva, portanto, as atividades práticas ao ar livre vieram antes da teoria, invertendo o planejamento inicial do curso. Tudo adaptável aos fatores sociais e climáticos, como preconiza a permacultura.

À noite rolou uma roda de apresentação e uma conversa com Marcos Ninguém – mas, como não podia deixar de ser com esse polêmico permacultor, nada nos moldes convencionais. Um círculo em volta do fogo, de profunda conexão com os outros, com a natureza e com o espírito, ancorado pelo tabaco agroecológico produzido em Alpestre. “Tabaco é medicina, a medicina da palavra”, acredita Marcos. E por isso ele desenvolve um trabalho de plantio do tabaco com agricultores em Alpestre, consorciado com milho, feijão e outras espécies.

Rezo do tabaco

Rezo do tabaco

“Nossas medicinas sagradas foram violadas”, denuncia, e por isso é necessário ir contra sua banalização, fazendo o uso consciente e o resgate do seu poder. E, além do aspecto cultural e espiritual, gera-se renda e saúde para os agricultores, que não precisam mais lidar com os insumos químicos tão comuns na indústria do tabaco e recebem um preço bem melhor pelo seu produto, cujo processo de produção não agride a Mãe Terra – pelo contrário, a beneficia.

Na sexta-feira (25) o céu desaguou sobre nossas cabeças, como esperado, e aproveitamos para nos recolher e ter uma conversa com Marcos sobre design em permacultura e sobre os princípios e sistemas da permacultura com Mildred. No final fizemos um exercício de planejamento para a Nova Oikos, a partir de elementos reais: cozinha, banheiros, área de confraternização e casa de ferramentas.

Finalização das paredes do banheiro seco

Finalização das paredes do banheiro seco

Já no sábado (26) colocamos a mão e o pé na massa: terminamos de levantar as paredes do banheiro seco com os detalhes das garrafas e fizemos o reboco fino; a parede externa do alojamento também ganhou uma camada de reboco fino; surgiram dois novos canteiros de onde sairá o “brise vegetal”, proteção contra o sol na casa de ferramentas; e construímos um belo forno, acompanhado de balcão e fogão foguete.

Construção de novos canteiros

Construção de novos canteiros

Forno em formato de pirâmide inca, balcão com mosaico e fogão foguete sendo avaliados no rolê final com Mildred

Forno em formato de pirâmide inca, balcão com mosaico e fogão foguete sendo avaliados no rolê final com Mildred

Domingo (27) foi dia de fazer um tour de avaliação das obras realizadas ao longo do curso, acertar os últimos detalhes das construções, limpar a casa e preparar a partida. Dia também de muitas despedidas. Eis o que fica de mais rico, para além de todo o aprendizado objetivo: as trocas e conexões que esses eventos proporcionam, as sementes plantadas, as pontes estabelecidas. Que a cultura de sustentabilidade e transformação planetária se multiplique cada vez mais!

4

 

Veja mais imagens do curso aqui, aqui, aqui, acolá, aqui, , aqui, acolá, , aqui, aqui, acolá.

Confira esse videozinho.

E veja as receitinhas de argamassa para reboco fino, solo-cimento e massa de preenchimento utilizadas no curso.

Receita de solo-cimento

Destacamos que essa é uma receita genérica, que pode variar de acordo com o ambiente, os materiais locais e os fins desejados

Solo-cimento usado como rejunte de tijolos de adobe

Solo-cimento usado como rejunte de tijolos de adobe

  • 5 partes da mistura de areia e terra (70% areia e 30% de argila – conheça seu solo para saber quanta argila ele contém. Aqui na Nova Oikos, onde a terra é argilosa mas contém areia, utilizamos uma mistura de 50% de terra com 50% de areia)
  • 1 parte de cimento

Utilizamos essa mistura para fazer piso e rejunte, entre outras possibilidades.

Receita de massa de preenchimento

Destacamos que essa é uma receita genérica, que pode variar de acordo com o ambiente, os materiais locais e os fins desejados

Massa utilizada na preencher parede de pau a pique

Massa utilizada na preencher parede de pau a pique

  • 70% areia
  • 30% argila
  • palha (suficiente para dar a liga)

Costuma-se utilizar terra do local para se fazer a massa. Nesse caso, é necessário conhecer a terra que se tem para saber a quantidade de areia a se adicionar. No caso da Nova Oikos, utilizamos uma mistura de 50% de terra e 50% de areia – sendo que, mesmo a terra local sendo argilosa, contém areia. Para testar a terra, basta colocá-la num vidro com água, chacoalhar bem, mas bem mesmo, e esperar decantar (há quem adicione uma colher de sal grosso para que decante mais rápido). Aí pode-se verificar a quantidade de areia, argila e silte que há na terra em questão.

Veja mais info aqui.

Destacamos que essa é uma receita genérica, que pode variar de acordo com o ambiente, os materiais locais e os fins desejados

Exemplo de reboco fino aplicado em parede de cob

Exemplo de reboco fino aplicado em parede de cob

  • 6 partes de mistura para reboco fino (compra-se pronta em lojas de material de construção, consiste numa mistura de areia fina e cal)
  • 1 parte de cal
  • “nata” de argila (há duas opções para o preparo da nata: caso haja argila seca, ou tempo para secá-la, ela deve ser peneirada e misturada à agua; caso contrário, mistura-se a argila úmida com água  – suficiente para cobrir a quantidade de argila – e peneira-se)

Misture bem até ficar na consistência desejada.

Relato do PDC (Curso de Design em Permacultura) realizado na Nova Oikos em janeiro de 2016. Por Gabriela Klein.

4

Imagem: Michele Torinelli

Todo o período entre 12 e 25 de janeiro, que fiquei na Nova Oikos junto com mais 29 pessoas, foi mais do que aprendizado teórico e prático sobre permacultura. Foi respirar essa palavra com todas as letras, P-E-R-M-A-C-U-L-T-U-R-A, em cada segundo do curso. Vou contar como.

Todos os eventos da Nova Oikos são, na verdade, vivências de empoderamento – e o Curso de Design de Permacultura (ou PDC) não foi diferente. As tarefas domésticas que tem que ser feitas são divididas por todos: limpeza, café da manhã e outras refeições, lavar a louça, virar o bokashi (um adubo orgânico superpotente que é ensinado como fazer durante o curso), esvaziar o banheiro seco, entre outras tarefas de rotina do lugar. Como a Nova Oikos é um espaço que está em construção, há muita demanda durante o curso em questão de logística, então só funciona bem se todos ajudarem. E essa ajuda não está na tabela de tarefas.

5

Feitura do bokashi

Às vezes o que não aprendemos ou esquecemos na cidade é um dos três princípios éticos da permacultura, cuidar das pessoas. O lugar nos puxa para fazermos isso e lembrarmos disso a toda hora. Lá vemos as pessoas de forma diferente, o que nos ajuda a olhar melhor as pessoas quando voltamos. Por exemplo, como ficamos bastante embaixo do sol e/ou recebendo uma grande carga de conhecimento, precisamos de água, uma das necessidades básicas do corpo. Naturalmente, adere-se a uma prática, quem bebe água oferece essa água para todos! Outra coisa natural que vi e pratiquei foi perguntar para as pessoas como elas estão, logo cedo. “Bom dia, como você está? Dormiu bem?”. Olhando nos olhos da pessoa, tocando, abraçando, e o resultado é incrível! Muitos me falaram que há tempos as pessoas não se preocupavam de fato com elas.

Outro princípio ético é cuidar da terra: em quais momentos na nossa vida sentimos que fazemos parte da natureza? Nos ocupamos muito em envenenar a terra, as plantas e os animais para que produzam muito para satisfazer os desejos de poucos. Aprendemos a valorizar e incentivar os alimentos orgânicos e a produção local. Além do mais, o que deixamos para a terra? O uso de químicos, para começar no nosso próprio corpo, é o que vai para a terra e para as plantas e animais em qualquer lugar que você esteja. Então repensar a quantidade e a qualidade dos cosméticos e produtos de higiene que você utiliza é importante. Cada conversa e troca sobre o uso de cosméticos naturais e caseiros agrega na sua própria experiência.

O terceiro princípio ético da permacultura é a importância de repartir os excedentes e do consumo consciente – e naturalmente me veio na cabeça uma frase que me marcou muito durante o curso: “Pegue suficiente pra ti lembrando que tem mais pessoas pra pegar”. Frase dita pela Rafa para o companheiro Martin em um momento inesquecível para mim. Questionamentos me vêm na cabeça. Você realmente precisa disso? E se precisa, será que tem mais gente que precisa também? Essa ética fala sobre tantas coisas que é até difícil contextualizar tudo. Tudo o que produzimos tem o objetivo de utilizar algo ou consumir de alguma forma, e tudo que consumimos e utilizamos gera um resíduo. Se pararmos por aí terá um acúmulo de resíduos e matéria-prima finita para produzir. Por isso, pensar em fechar o ciclo é essencial para a vida continuar fluindo. E ainda, quando se fala em repartir os excedentes, se chega à conclusão que há excedentes e, por isso, há abundância, em tudo, alimentos, emprego, dinheiro, e quando falta é porque é mal distribuído e acaba não chegando à maioria das pessoas – o que gera um pensamento de falta, de escassez.

A rotina da Nova Oikos para alguns é parecida com a rotina da cidade, para outros é bem diferente. Acordamos cedo e o café está servido às 7h, temos em geral até às 7h30/8h para estarmos prontos para a atividade. Como este curso é bastante teórico, tivemos bastante aulas teóricas, sendo em sala, na mata, na geodésica ou entre a cozinha e o alojamento, aproveitando os horários de sol e sombra dos diversos ambientes, ajudando o corpo a captar melhor essa energia que vem através do conhecimento e armazená-la de forma eficiente (2° princípio da permacultura segundo David Holmgren). O espaço em si nos transmite muita calma e tranquilidade, o contato com a natureza nos ajuda a observar e interagir (1° princípio) conscientemente com ela e, assim, aprendendo a fazer o mesmo com as pessoas. E através dessas observações em uma das aulas práticas, vimos que a natureza nos mostra vários padrões e cada padrão tem seus detalhes (7°), e essas formas são respostas da natureza a condições do clima. No meio da manhã e da tarde recebemos lanches para fortalecer ainda mais o aprendizado e assim obter o rendimento (3°) que é esperado para o curso. Antes de todos os almoços e todas as jantas é feito uma roda de agradecimento à comida e tudo que trouxe ela para os pratos, para nos acalmarmos e nos conectarmos com o alimento. Depois os cozinheiros apresentam a comida do dia e todos vão comer. A alimentação do curso todo é o máximo possível orgânica, vegetariana e evitando os derivados de leite e ovos.

O terreno possui abundância em água mineral, por ter diversas nascentes, mas não é por isso que não somos ensinados a evitar o desperdício (6°): lavamos a louça no sistema de três bacias de água e sempre pensamos que o resíduo gerado no banheiro e na cozinha se transforma em adubo, seja para a BET (bacia de evapotranspiração), seja para o bokashi. Em alguns exercícios práticos que fizemos o maior desafio era o pouco tempo que tínhamos, então descobrimos que usar soluções pequenas e lentas (9°) acabava sendo mais
rápido e eficiente do que pensar em realizar grandes sonhos de imediato. A construção de um projeto em grupo pode dar muito certo se utilizar e valorizar os recursos que cada um tem a oferecer porque assim a energia do projeto, do local e do grupo é sempre renovada (5°). Então aprendemos a acolher a criatividade, a metodologia, a habilidade de fazer ótimos desenhos e, principalmente, os sonhos, integrando cada participante no grupo, em vez de segregar (8°). O círculo dos sonhos é exemplo disso, em que cada um tem um tempo para falar sobre seus sonhos, algo que não nos permitimos fazer nos dias de hoje.

2

Os facilitadores mostraram que existe diferença na abordagem e na visualização da permacultura através das pessoas, o que a princípio pode ter gerado um certo desconforto ou admiração por um ou outro. Porém, no decorrer do curso aprendemos a usar e valorizar a diversidade (10°) – não só dos facilitadores, mas de cada participante. As pessoas são diferentes e ao longo de toda nossa vida a sociedade insiste em nos deixar iguais, quando o simples é apenas aceitar a diferença e saber utilizar ela para o bem do coletivo. Nesse mesmo pensamento, vimos que as grandes empresas e corporações centralizam muitos serviços – o que faz com que as pessoas esqueçam de usar os limites e valorizar os elementos marginais (11°),  que geralmente são os com maior potencial.

Para que o curso e a Nova Oikos sempre se renovem, os organizadores do curso tiveram todo o cuidado com as críticas, os sentimentos, as insatisfações, as alegrias e empolgações dos participantes através de círculos de trocas em que todos tinham a oportunidade de se expressar sobre como estavam se sentindo. Aplicar a autorregulação e aceitar o feedback (4°) foi também o objetivo do questionário no último dia do curso, respondido pelos participantes e retornado com observações e agradecimentos pela guardiã da Nova Oikos e organizadora do PDC, Mildred.

Apesar de todas as dificuldades, todos os encantamentos e, agora, a volta para a cidade, o maior legado que o curso me deixou foi a esperança. Essa palavra me mantém na luta para eu me unir com as pessoas e transformar o ambiente urbano e rural respeitando as pessoas e o meio ambiente. E eu só vejo uma maneira de fazer isso, usando e respondendo à mudança com criatividade (12°); dessa forma podemos sensibilizar as pessoas e despertar nelas o poder da transformação interna.

Obs.: Obrigada a todos os participantes que foram a maior inspiração para eu conseguir começar e terminar esse relato (Mil, Martin, Peter, Rafa, Thomas, Emily, Maicos, Fer, Lais, Matheus, Elis, Ana, Cajuzinho, Aninha, Bruno, Paolo, Mii, Arthur, Pats, Vine, Wagner, Carla, Taci, Joabi, João Paulo, Mari, Cairo, Flavio, Pedro e Sol).

3

Imagem: Rafaelle Mendes

Um pouco da experiência de Permacultura na Prática na Nova Oikos

Por Michele Torinelli

 

1

Ciranda do barro: pisando a massa do pau a pique. Imagem: Airo Barros.

13 dias, mais de 20 pessoas, práticas de bioconstrução, mudas plantadas, receitas experimentadas e muito de uma troca menos objetiva e mais profunda que fica difícil de relatar. Como construir uma outra agricultura, uma outra alimentação, uma outra construção civil, um outro saneamento, uma outra forma de viver e de se relacionar, enfim, um outro mundo que não esse calcado no medo e na exploração?

Não sabemos, temos algumas pistas e teimamos em experimentar.

Vegetarianismo, veganismo e crudivorismo. Agrofloresta e permacultura. Consumo consciente.  Bioconstrução. Conexão natural e espiritual. Comunidade. Cuidado com os outros, com a terra, com o mundo. Esses foram alguns dos temas que permearam a vivência Permacultura na Prática, realizada na Nova Oikos de 07 a 20 de dezembro de 2015.

“O que a gente faz aqui pode parecer pequenininho, mas é parte de um movimento internacional, revolucionário, subversivo”, disse Mildred Delambre, coordenadora da Nova Oikos, iniciativa localizada em Camboriú (SC). Já disseram pra Mildred que ela é “o cara”, mas ela não gostou não: “por que até pra elogiar precisam chamar a gente de ‘cara’?”, desafia.

2

E a revolução se dá nas pequenas atitudes – como o fato de não haver um valor fixo para a inscrição na vivência, apenas um indicativo de contribuição espontânea. Informa-se o custo diário por pessoa e pede-se que cada um contribua de acordo com sua condição. A planilha financeira, com entradas e gastos, é disponibilizada para todos.

Outro diferencial é o período mínimo de permanência: pelo menos cinco dias, visando a criação de vínculos, tanto com a proposta como entre as pessoas. Os objetivos principais da experiência não são o lazer nem o passeio, mas a troca, a prática e o aprendizado – e sem substâncias entorpecentes, legais ou ilegais, pois é possível socializar sem elas, talvez de maneira ainda mais verdadeira.

Os participantes se autogestionam para preparar as refeições e limpar os espaços comuns. Como destaca Mildred, a vivência não é um serviço oferecido pela Nova Oikos. A Nova Oikos é composta por cada um que ajuda a construí-la, com suas mãos, sua vontade, sua entrega –  uma tentativa de subverter a propriedade privada tornando-a comum. Não é fácil, a autonomia é um desafio que exige que cada um reconheça sua responsabilidade e arque com ela.

3

Mildred falando sobre Bacia de Evapotranspiração: “sala de aula” na mata

A superação da condição de cliente para a de parceiro, seja do que quer que façamos, é um salto emancipador. Para isso precisamos nos tornar mais criteriosos e nos libertar da condição de consumidores passivos e de empregados – que esconde a introjetada necessidade de termos um chefe, alguém que decide e manda por nós. Exige aprender a ser livre, um intenso exercício que pressupõe desaprender muito do que nos ensinaram e construir uma nova (velha) forma de se viver, resgatando o que já sabiam nossos ancestrais – o que, com muita resistência, ainda praticam os povos tradicionais e, com muita luta e coragem, também fazem os movimentos sociais.

 

Dos conceitos à ação

Muitas atividades foram desenvolvidas a partir dessa lógica comunitária e colaborativa que se engendra em diálogo com a permacultura, perspectiva que se baseia no cuidado com a terra e com os outros, bem como na partilha justa. O termo, que foi cunhado na Austrália e se disseminou pelo mundo, envolve princípios, metodologias e práticas que abarcam agricultura, saneamento, construção e relações entre os seres vivos.

4

Preparando a agrofloresta

Iniciamos uma agrofloresta atrás do alojamento da Nova Oikos, local bioconstruído ao longo das vivências para abrigar colaboradores. Para isso recolhemos matéria orgânica, utilizada como adubo, o que envolveu o manejo do bambuzal, cujas folhas secas e galhos apodrecidos oferecem ricos nutrientes. Também foram recolhidas mudas de bananeiras, e os caules excedentes utilizados como adubo para as novas plantas, assim como as folhas em decomposição que se acumulam sobre o solo em meio à mata.

5

Banheiro seco com parede de pau a pique preenchida com lixo

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) imitam a lógica natural para a produção planejada de vegetais, considerando a relação entre plantas, clima, solo e comunidade. Combinam-se diferentes espécies de modo a favorecer todos os elementos, o que permite recuperar áreas degradadas e produzir, simultaneamente, alimentos, matéria orgânica para adubagem e até mesmo madeira. É o oposto do que faz o sistema de monocultivo, que degrada o solo para a produção de uma única espécie em larga escala, frequentemente com o uso de fertilizantes e agrotóxicos. Além de reflorestar a área, a agrofloresta iniciada produzirá alimentos para os futuros encontros no local.

A vivência abarcou também a bioconstrução de algumas obras: a estrutura de um novo banheiro seco foi levantada, com direito a telhado de folha de palmeira e paredes preenchidas com todo o lixo produzido ao longo do último ano no local (as paredes serão revestidas de acordo com a tradicional técnica de pau a pique, a partir de uma mistura de terra, areia e palha).

6

Reboco grosso no pau a pique

A cozinha da Nova Oikos ganhou coberturas de folha de palmeira, material disponível na área. As lonas utilizadas como base para os telhados foram reaproveitadas, dando uma finalidade útil para esse resíduo da indústria publicitária.

Fizemos o reboco de uma parede de pau a pique na Panaceia, iniciativa parceira da Nova Oikos e adepta da permacultura localizada em Camboriú. Lá também contribuímos com o manejo do lixo (ou melhor, o resíduo) orgânico, coletado em estabelecimentos comerciais da região e transformado em adubo.

7

Lixo do banheiro vira adubo no bokashi

De volta à Nova Oikos, fizemos uma experiência de bokashi, um super adubo que potencializa o cultivo vegetal. Entre os vários elementos da fórmula, utilizamos os resíduos da cozinha e do banheiro produzidos ao longo da vivência – sim, seu papel higiênico pode virar adubo!

Outra atividade foi a construção de piscinas naturais a partir do remanejamento de pedras do rio. E, no espírito de parceria, visitamos o Ecossítio Arandu, no munícipio de Paulo Lopes. Lá construímos uma BET  (Bacia de Evapotranspiração), técnica bastante difundida entre permacultores e que permite fazer o tratamento de efluentes domésticos (neste caso as águas negras, das privadas) de forma autônoma e ecológica.

8

Piscina natural

Mildred fez uma exposição teórica sobre o tema na melhor “sala de aula” que poderia existir – a mata. O buraco da BET já estava cavado – fizemos os reparos necessários para o nivelamento (considerando o escoamento de água), revestimos com lona e fizemos um túnel de pneus com o cano do banheiro acoplado. Sobre ele jogamos uma camada de entulho grosso de construção (muitos tijolos e concreto quebrado)  e algum resíduo doméstico (ferro e plástico). Depois revestimos com terra e cobrimos com palha retirada da mata. O próximo passo será plantar as espécies que farão a limpeza, a fitorremediação: bananeira e taioba, entre outras.

Para o tratamento de águas cinzas, que são todas as outras que carregam os resíduos produzidos numa casa, basta um círculo de bananeiras.

9

Trabalho na BET com trilha sonora ao vivo

A vivência também contou com oficinas autogestionadas oferecidas pelos participantes, como círculos sagrados (feminino e misto), comunicação compartilhada, bolos veganos e outras mais, sem falar nas muitas fogueiras rodeadas de música e dos inúmeros improvisos sonoros que catalisaram a energia nos momentos em que ela mais era necessária.

 

Redes de cooperação e empoderamento

As atividades da vivência encerraram no dia 19 com uma Feirinha Permacultural aberta à comunidade, que contou com a venda de produtos orgânicos e artesanais, feira de trocas, prática de yoga e almoço comunitário feito pela galera da vivência. A programação também incluiu oficinas sobre cosméticos naturais, produção e aproveitamento de resíduos, PANCs (Plantas Alimentícias Não-Convencionais) e maternidade consciente. Como não poderia deixar de ser, o evento foi gratuito, aberto a contribuições espontâneas.

10
Oficina de cosméticos naturais: em roda

Em meio à programação oficial podia-se vislumbrar uma teia de trocas de informações e afeto que unia as pessoas nas rodas, que conectava olhares e conversas. Percebia-se que o movimento é diverso, plural, mas, ao mesmo tempo, unitário. As diferenças podem e devem ser conectadas a partir de princípios, objetivos e práticas comuns ou complementares, que valorizem a saúde integral dos seres vivos e a emancipação humanitária. Esse outro mundo, em alguma medida, já existe: está em gestação.

As trocas foram intensas ao longo de toda a vivência, que envolveu muitas risadas e muito companheirismo, mas também conflitos e dificuldades inerentes à rotina comunitária. A frequentemente difícil definição de acordos em meio aos conflitos não só faz parte do processo de construção de comunidade, mas traz em si o gérmen de todo o potencial de crescimento e realização que só o enfrentamento ao individualismo proporciona. Para isso, mesmo em meio a tantas demandas e anseios objetivos, o acelerado ritmo coletivo era suavizado para a realização de rodas de conversa de avaliação, em que cada um colocava como se sentia, o que estava achando positivo ou o que podia ser melhor.

Havia um cuidado constante com a afinação do grupo, para além das reuniões: as rodas antecediam todas as refeições, momentos em que as mãos se juntam e o julgar é substituído pelo sentir, em que o toque acalma a mente e conecta os corações. Lembrar de agradecer à vida e aos companheiros, de celebrar o alimento e a união. De fortalecer o corpo e o espírito com uma comida saudável que beneficia o produtor, o consumidor e a terra.

O sentimento é de gratidão, palavra tantas vezes repetida na vivência, que em muitas ocasiões é banalizada – assim como a palavra amor, presente em inúmeras propagandas de produtos que vendem a exploração e a doença; a indústria “ama muito tudo isso”. Mas a subversão de não estar obrigado a nada, mas grato a tudo, é profunda: é um empoderamento que surge do amor à vida, em todas as suas manifestações. Reflexão essa que foi verbalizada, justamente, na última roda de avaliação da vivência.

As palavras têm poder: podem escravizar ou emancipar, reproduzir ou subverter. São roupas com que vestimos nossos pensamentos e sentimentos, uma das formas com que podemos manifestar nosso espírito. Façamos bom uso delas, para disseminar o que realmente importa. Esse texto é um experimento nesse sentido.

 

Ahô! Saravá! Namastê.

 

Só ET.

 

11

Quadro de boas vindas da Feirinha Permacultural que aconteceu na Nova Oikos no último dia da vivência

 

Curso de Permacultura e Sistemas Agroflorestais

Perma & SAF

SAF logosCurso e Vivência (20h/aula)
PERMACULTURA E SISTEMAS AGROFLORESTAIS

Programação:
31/10 – Sábado Inicio 8h30
01/11 – Domingo 100% prática
02/11 – Segunda Finalização e Partidas a partir das 11h

cartaz facilitadores SAF

FICHA DE INSCRIÇÃO ONLINE
http://goo.gl/forms/SofjO13mc8
DÚVIDAS: nova.oikos@gmail.com

Contribuições financeiras:
Aporte mínimo: R$ 260
Aporte ideal: R$ 360

O participante é livre para decidir um valor entre o mínimo e o ideal. Em caso de dificuldade em alcançar o valor mínimo, queira fazer uma proposta com seu ponto de equilibrio. Ninguém fica de fora por motivos financeros.

A vaga será confirmada mediante depósito ou tranferência antecipada, no valor total do aporte. Envie um e-mail comunicando a efetivação da transação para receber o endereço e detalhes da estadia.
BANCO DO BRASIL
AG 3616-1 CC 33174-0
(Mildred G D J Dias CPF 007 133 999-02)

cartaz aprendiz

Para se inscrever como aprendiz, envie carta de motivação para nova.oikos@gmail.com com suas habilidades e conhecimentos que possam auxiliar na organização e preparo da vivência. Os aprendizes contribuem com R$ 30 por dia para a alimentação, chegam dia 28/10 e partem dia 03/11.

SAF

Muitas pessoas nos chamam para as mais diversas intervenções e chegou o momento de comunicar mais claramente os serviços que prestamos como forma de viabilizar economicamente nosso próprio projeto.

novaoikos2

Aqui no sítio, que fica em Camboriu – SC, a apenas 10 minutos da rodoviária de Balneário Camboriú, recepcionamos alguns tipos de atividades, tanto promovidas por nós mesmos quanto promovidas por terceiros. Não “alugamos” o local. Fazemos parcerias para eventos relacionados aos seguintes temas:

  1. Acampamentos: de escotismo, “bushcraft”, acampamentos para turmas de escola e universidades para educação ambiental e atividades de reconhecimento de flora, imersões de ecologia profunda, etc.
  2. Cursos e Vivências: de permacultura (design), agricultura orgância, sistemas agroflorestais, bioconstrução, artísticas, de culinária vegetariana, ecologia profunda, carpintaria, ferramentaria, uso e manejo de bambu, sistemas de tratamento ecológico de efluentes, tratamento de resíduos, e assuntos relacionados.
  3. Feiras e eventos de assuntos relacionados.

Também atuamos fora do sítio, para particulares, ongs ou instituições públicas, no planejamento, criaçao e execução de jardins, obras de bioconstrução, tratamento ecológico de efluentes domésticos, recuperação de áreas degradadas, etc.

Organizamos cursos e vivências em sítios, residências, escolas ou instiuições, de acordo com a necessidade do local, tanto para execução de algum elemento no território (uma horta, uma casa..) quanto para capacitação de profissionais, pedreiros, acadẽmicos, produtores, no que diz respeito à permacultura e bioconstrução.

espiral

PDC em Curitiba, julho 2016

Ciclo da BioConstrução

Celebramos o fim do nosso ciclo “bioconstrutivo” no espaço da Nova Oikos. Acredito que chegamos próximo à 80% da conclusão das obras que vão permitir a mudança completa e permanente das nossas atividades para o espaço onde focalizaremos as atividades coletivas aqui no sítio.

A Nova Oikos, para quem não sabe, está dividida em 3 grandes áreas: um espaço de aprendizagem e experimentação permacultural, uma área residencial e um empreendimento familiar (Pousada Ecológica – que ainda está em obras). Na verdade, tudo está em constante crescimento, aperfeiçoamento e mudança… e é tudo feito em escala e dentro das capacidades físicas humanas. Basicamente financiado pelas  atividades realizadas aqui e pelos serviços de Permacultura e Gestão, realizados pela fundadora do espaço. Vejam no link os serviços que oferecemos.

Em abril, nosso projeto análogo, Espaço Rural Panaceia, lançou uma oficina para a construção de dois domos geodésicos. Fomos colaborar e conhecemos uma dupla galáctica de magos argentinos: o Sol e o Dani. Com uma energia muito parecida com a nossa, logo ressonamos e iniciamos uma parceria. Primeiro, para auxiliar na finalização da montagem do segundo domo no Espaço Panaceia, organizamos em parceria uma oficina prática no dia 9 de maio.

Acima: Geodésica 2, montada. Abaixo, Geodésicas 1 e 2 fechadas!

 
 Os trabalhos continuaram e organizamos ainda: um mutirão nos dias 30 e 31 de maio e dois períodos de aprendizado em Bioconstrução de 18 à 28 de junho e de 7 à 20 de julho.
 
No meio tempo, montamos rapidinho uma geodésica de bambu, aqui na Nova Oikos, durante a Oficina Prática – BIOCONSTRUÇÃO (Terra, Bambu e Domo Geodésico). A ideia era ter uma estrutura leve, transportável e multifuncional, para acessar renda e mobilidade para a Nova Oikos.
finalAcabamentos finalizados nos domos da Panaceia, a dupla da Esfera Absoluta voltou para a Nova Oikos e abraçou nosso projeto do alojamento no espaço experimental. Foi a Vivência de Aprendizado em BIOConstrução
que aconteceu de 30 de julho à 11 Agosto, logo depois do nosso PDC em Curitiba.
O projeto não era complexo, mas tivemos bastante trabalho! Foi um grupo muito querido, onde a maioria dos participantes eram iniciantes em Bioconstrução e sentimos o esforço que fizeram para conseguirem acompanhar os 13 dias de atividade. Aqui, diferente de alguns espaços, sabemos que “vivência” não é “obra”. Então, ao final, celebramos o andamento e a energia depositada em cada centimetro das fundações às paredes que se ergueram. O resultado final foi esse:
Finalizamos a vivência, mas não a obra. Então, seguimos a parceria para tentar alcançar nosso objetivo tão almejado: trazer os beliches para dentro do alojamento!! Saiu então, mais duas partilhas no processo: a Imersão Permacultural de Bioconstrução que aconteceu de 27 à 30 de agosto e uma vivência longa, de 18 à 27 de setembro que começou devagar, e terminou com muito amor entre os participantes. Eu chamo isso de “o efeito-barro” e o resultado é algo assim:
corpo
melhor2
Entre um banho de lama e outro,  também rolou construção, plantações de mudas e alguns outros Serviços para a Terra. Na obra, focamos nos acabamentos. Fomos agraciados pela  habilidade do Zé, que fez o curso de Bambu aqui com o Rodrigo Primavera, e que nos presenteou com lindas janelas, iluminação natural com vidros temperados! Instalação profissional! ❤
casinha fundosE falando em profissional, no fim da vivência, ainda tínhamos muitos detalhes para acabar. O Sol, da Esfera Absoluta, continuou conosco, desta vez trabalhando solo. Nessa semana depois da vivência ele deu um acabamento poderoso nas paredes internas e finalizou o grosso do piso de cordwood.
Com a chegada do Alan, passamos pouco tempo na obra, seguindo para o inicio de um novo ciclo – o da comida!
A obra vai continuar e aceitaremos ajuda de quem já tiver experiência. Bioconstrutores que estiverem de passagem são bem-vindos para trocarmos figurinhas. No momento, a chuva forte e inconstante atrapalha um pouco, mas uma hora há de passar. Esse post é para registro da evolução do sítio, do nosso trabalho e das energias em forma de pessoas, que passam por aqui, deixam seus tijolinhos e levam consigo essa experiência que é a base da Nova Oikos – a experiencia do compartilhar e vivenciar hoje, o mundo que queremos amanha.
Fica nossa oração em forma de música, com boas lembranças e muita gratidão.

“Y el misterio de la creación
yace en el fondo de tu corazón
y allí encuentras la curación
y así cumplimos nuestra misión.

De ser humano, ser vivo
sea lo que sea y aprendemos lo que es existir
Ser humano, ser vivo
sea lo que sea por lo menos que estemos aquí
observando la vida que viene y se va
Así es la vida que viene y se va, como las flores creciendo
nos lleva para donde debemos estar, como el río fluyendo
con cada regalo me encuentro lleno de agradecimiento
y rezo porque siga siendo así.”